Após ser agredida, professora trans troca indenização de R$ 20 mil por aula contra à transfobia

'Erro precisou ser corrigido de forma pedagógica', diz Natalha sobre palestra que fez parte de acordo judicial e reuniu 40 pessoas da empresa.

Professora Natalha do Nascimento, em palestra para funcionários de pastelaria de Brasília (Foto: Tribunal de Justiça do Distrito Federal/Divulgação)
Professora Natalha do Nascimento, em palestra para funcionários de pastelaria de Brasília (Foto: Tribunal de Justiça do Distrito Federal/Divulgação)

Sempre que passava em frente à tradicional pastelaria Viçosa na rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, a professora Natalha do Nascimento – uma mulher trans – ouvia xingamentos dos funcionários do local. Após uma disputa na Justiça, na última sexta-feira (24), ela voltou a se colocar na frente dos trabalhadores. Desta vez, para ministrar uma palestra.

O encontro foi resultado de um acordo homologado no 6º Juizado Cível de Brasília. Natalha entrou com uma ação na Justiça contra a empresa depois das agressões verbais, físicas e psicológicas que sofreu.

Durante a audiência de custódia, em maio deste ano, a professora se prontificou a falar com os funcionários. Como o agressor identificado foi demitido, Natalha também abriu mão da indenização por danos morais, fixada em R$ 20 mil.

Acostumada às salas de aula, Natalha transformou o auditório do Fórum Desembargador José Júlio Leal Fagundes em uma. Diante de 40 trabalhadores da pastelaria, a professora falou durante uma hora sobre os seguintes temas:

  • aspectos biológicos e comportamentais das pessoas trans;
  • modelos sociais;
  • atendimento ao público;
  • direitos;
  • violência aos desiguais;
  • e a importância das denúncias contra atos discriminatórios.

“Sou docente de formação e me orgulho imensamente dessa profissão. Após a palestra-aula, pensei muito no que aconteceu. Foi um erro dos funcionários e que precisou ser corrigido de forma pedagógica”, disse a professora em entrevista para TV Globo.

Ao encerrar a “palestra-aula”, como prefere definir o encontro, Natalha diz ter se emocionado. O sentimento, segundo ela, era de “missão cumprida”.

“Me emocionei quando lembrei das minhas amigas que morreram sem nunca terem ouvido falar em ‘nome social’ ou identidade de gênero. E reconheci os avanços que, mesmo tarde, vieram.”

Professora Natalha do Nascimento sendo coroado pelo seu trabalho contra à transfobia durante Parada LGBTS de Taguatinga, em 2018. (Foto: Ernane Queiroz/Arquivo/Gay1)
Professora Natalha do Nascimento sendo coroado pelo seu trabalho contra à transfobia durante Parada LGBTS de Taguatinga, em 2018. (Foto: Ernane Queiroz/Arquivo/Gay1)

Educação contra a violência

Para fechar o bate-papo, ela usou a frase: “a educação é o eixo da desconstrução da violência”. Sem ressentimentos, Natalha enxergou o momento como uma forma de unir forças para lutar contra a discriminação e as agressões que pessoas trans enfrentam, diariamente, no Brasil.

“Desejo que todos eles sejam felizes, sigam a vida de forma ordeira e que consigam levar esse aprendizado para a vida. Consigam ser multiplicadores da generosidade, do respeito e da desconstrução da violência dos vulneráveis.”

O Brasil é o país que mais mata pessoas travestis e transexuais no mundo. Dados do Grupo Gay da Bahia mostram que, em 2016, 127 pessoas trans foram mortas – uma a cada 3 dias. A expectativa de vida delas é de 35 anos – menos da metade da média nacional, que é de 75 anos.

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